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O canto

Autor: Carlos Oswaldo


Foto de Christiano Ariel Teixeira

Meu tio Christiano era um artista raro. Grande escultor, aquarelista talentoso e, nas horas vagas, também cantor de ópera. Entre suas antigas professoras estava Amparito, uma soprano ligeira espanhola de enorme prestígio. Já idosa, ela havia sofrido uma queda dentro de casa, quebrado a perna e sido internada no antigo Sanatório de Correias, em Petrópolis. Embora, na época, o hospital fosse voltado principalmente para pacientes psiquiátricos, existia uma pequena ala destinada a pessoas sem recursos que precisavam de tratamento ortopédico.


Um dia, Christiano me telefonou:


— Quando você for a Petrópolis e voltar no mesmo dia, me leva para visitar a Amparito?


Algum tempo depois surgiu a oportunidade. Fui resolver um assunto na cidade e o convidei. Fizemos o que tínhamos de fazer e seguimos para o sanatório.


Confesso que fiquei impressionado com o ambiente. O hospital era ocupado quase inteiramente por pacientes psiquiátricos. Caminhamos pelos corredores até chegarmos ao quarto de Amparito.


Era um quarto amplo, no térreo, com três camas. A primeira, ao lado da porta, estava vazia. Na cama do meio havia uma senhorinha muito pequena e muito idosa, que tremia sem parar, dando a impressão de estar nos seus momentos finais. Perto da janela estava Amparito, deitada sob os lençóis.


Assim que nos viu, abriu um sorriso:


— Christiano!


Os dois começaram a conversar, relembrando histórias. Eu me acomodei discretamente numa cadeira, apenas observando.


Em certo momento, Christiano reconheceu a outra senhora. Era uma escultora que fazia máscaras extraordinárias em palha. Lembrou-se da pequena loja que ela mantinha no Edifício Ceará, em Copacabana, perto da Rua Duvivier, e de como ficara impressionado, anos antes, com uma máscara de Gandhi usando óculos, criada por ela.


Enquanto conversavam, a escultora, com dificuldade para compreender o que Christiano dizia, perguntou:


— Você fala em italiano?


Ele respondeu, com o humor que lhe era característico:


— Falar, não. Italiano eu canto.


Ela então perguntou se ele poderia cantar uma ária. Christiano segurou delicadamente sua mão trêmula e começou a cantar, bem baixinho. Amparito entrou logo em seguida, acompanhando-o também em voz baixa.


Aos poucos, as vozes foram crescendo. O dueto ganhou força, muito volume e emoção.

A voz de Cristiano enchia o quarto, e a de Amparito, apesar da idade e da internação, continuava impressionante.


A música começou a ecoar pelos corredores do sanatório.


Um a um, os pacientes psiquiátricos apareceram na porta. Depois nas janelas. O quarto foi ficando cercado por curiosos, todos hipnotizados por aquele concerto improvisado.


E eu, sentado na minha cadeira, assistia àquela cena completamente sem saber se ria ou se me preocupava em conseguir uma rota de fuga.


Foi então que Amparito se sentou na cama. Estava nua sob os lençóis brancos e tratou de se enrolar neles enquanto continuava cantando, soltando a voz como se estivesse novamente num grande teatro.


Os dois seguiram no auge do dueto até que, de repente, Christiano interrompeu a apresentação:


— Amparito, para! Você atravessou!


Ela sorriu, os dois pararam de cantar e o silêncio voltou ao quarto.


Naquele momento percebi que havia uma pequena multidão de pacientes reunida à nossa volta. Confesso que pensei: “Como é que eu vou sair daqui?”


Mas, felizmente, tudo terminou da melhor forma. A plateia foi se dispersando, nos despedimos de Amparito e deixamos o sanatório.


Até hoje guardo essa lembrança como uma das cenas mais inusitadas que já presenciei: um improvisado concerto de ópera, no meio de um hospital psiquiátrico, capaz de reunir em silêncio pessoas que, por alguns minutos, pareciam completamente absorvidas pela força da música.


Acho que o mais bonito dessa lembrança é que, por alguns minutos, a música parece ter suspendido toda a realidade do lugar. Os pacientes, o medo, a doença e a própria internação desapareceram, restando apenas duas vozes que se reconheceram e voltaram a cantar como nos velhos tempos.

 
 
 

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